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Memorial

“COLÔNIA ALEMÃ DE SANTO AMARO, UMA TRAJETÓRIA ÍMPAR (1829-2017)”

Capítulo 3

31/01/2018 17h37
Por: Redação
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Imagem: Banco de dados do Google
Imagem: Banco de dados do Google

Leandro Hessel

Capítulo 03

Os Lavradores

 

 

 

O caráter da fundação da Colônia Alemã de Santo Amarofoi essencialmente agrícola, pois a iniciativa visava um aproveitamento de terras devolutas para tais fins e para interligação de pontos comuns entre diversas localidades, o que deveria proporcionar um centro ao mesmo tempo produtor e comercializador de gêneros.

 

Aos próprios colonos cabia o papel de pioneiro e desbravador. Tendo em vista as dificuldades que estavam cada vez mais inerentes com respeito à mão de obra escrava, era viável para o Império introduzir braços livres que aos poucos acabariam substituindo os escravos. Aliciados na Alemanha como sendo agricultores, muitos desses colonos, ao chegarem ao Brasil, acabavam revelando uma outra profissão. Dessa forma, passavam por agricultores – indivíduos que originalmente eram marceneiros, carpinteiros, tanoeiros, até médicos e cirurgiões – e que uma vez instalados na colônia, muito contribuíram para um maior aproveitamento profissional, principalmente quando acabavam se dirigindo aos centros mais populosos como Santo Amaro e São Paulo, onde tais profissionais eram raríssimos, sendo esses os que mais tiveram uma ascensão econômica viável.

 

 Partilhamos do que diz Sílvia Cristina Lambert Siriani “(...) não se pode negar o importante legado alemão no que tange à produção agrícola, principalmente, ao se pensar que os alemães foram os pioneiros na produção de manteiga, vinho, cerveja e determinados tipos de leguminosas, dentre as quais batatas, rabanetes e beterrabas, além de um grande número de diferentes hortaliças que integraram o cardápio de santamarenses e paulistanos. Foram ainda os responsáveis pela introdução de uma série de melhorias nas técnicas e ferramentas agrícolas, bem como no transporte de produtos”. (Uma São Paulo Alemã. Arquivo do Estado/Imprensa Oficial do Estado. 2003. Página 182).

 

Geralmente alguns pesquisadores acerca da Colônia Alemã de Santo Amaro tendem a crer que a ideia original da implantação dos mesmos na região, como colonos “lavradores”, não surtiu o efeito desejado. Muito embora a produção dos colonos não fosse extraordinariamente grande, como se esperava por parte do Governo Provincial, foi, contudo, superior a dos caipiras locais, que mantinham a rudimentar técnica do plantio em “coivaras” (plantio feito após a derrubada e queimada da mata, sem a preocupação de retirar os troncos, tocos e raízes).

 

A produção dos colonos e de seus descendentes fez com que Santo Amaro, em meados do século XIX, fosse considerado o “celeiro da Capital”; saíam de Santo Amaro os gêneros de primeiras necessidades para alimentar a Capital. Aí se vê tangivelmente que, ainda que modestamente, a Colônia Alemã de Santo Amaro teve sua importância como colônia agrícola. Nos “paióis” onde os colonos e seus descendentes lavravam a terra, ao contrário dos descendentes dos caipiras, os mesmos preferiam o sistema de desmatamento completo e preparação das terras mais férteis a fim de iniciarem suas lavouras, enquanto os caipiras usavam a rudimentar e perigosa técnica da coivara, tendo, dessa maneira, de deslocar sua cultura conforme a terra fosse perdendo sua fertilidade, provocada pelo fogo, que arrasa os nutrientes do solo.

 

A partir de 1894 começou a funcionar o Mercado de gêneros de Santo Amaro onde vários descendentes dos colonos, lavradores, comercializavam ali o produto da terra; vendiam principalmente milho, feijão, farinha de milho e de mandioca, batatas, batatas-doces, cará, pinhões, alho; bem como palmitos, ovos, frangos, toucinho, leitões; alguns, em épocas sazonais de certas frutas, também as comercializavam. Havia também um mercado informal no Rio Bonito. Posteriormente muitos dos descendentes dos colonos deixaram de comercializar víveres no mercado e montaram armazém próprio, alcançando grande prosperidade. Ao analisarmos os livros de arrecadação de impostos do mercado de Santo Amaro vemos o quanto a produção dos descendentes dos colonos era superior a dos caipiras locais.

 

Observamos que as terras da região da Varginha (atual Chácara Santo Amaro) demonstravam muita fertilidade para a produção de alho; principalmente os Guilger foram os que mais se destacaram em tal produção e eventual comércio de alho. Com relação a produção de batatas, os descendentes da Colônia Alemã de Santo Amaro que mais se destacaram foram alguns Helfstein, Hessel e Klein. Muito embora, se compararmos com a grande produção de batatas oriunda dos descendentes dos colonos de Itapecerica, a cifra é ínfima; em Itapecerica a produção de batatas foi muito próspera, com destaque para os Fischer, Justo Sillig e Nargang.

 

Devemos aqui lembrar que a produção agrícola desenvolvida pelos primeiros colonos alemães e seus descendentes, muito embora significativa, estava longe daquela que a partir da década de 1940 os japoneses alcançariam, utilizando das terras da mesma região.

 

Em várias épocas, desde a década de 1940 até meados da década de 1970, vários descendentes dos primeiros colonos trabalharam em “roças de japoneses” colhendo batatas, lavando legumes etc. A primeira notícia de um “arado” pela região da Colônia, data de fins da década de 1920 e início da década de 1930, foi quando um certo Felipe, descendente de alemães, estabelecido no Rio Bonito, “arou meio alqueire de terras” para Pedro Henrique Helfstein (Pedro Vargem) (1870-1954), na Vargem Grande; pouco tempo depois Pedro Henrique comprou o arado de Felipe.

 

Nos dias atuais, poucos descendentes da colônia continuam atuando como lavradores (de hortaliças, legumes, batatas ou gêneros de primeira necessidade), tendo a maioria dos que outrora se dedicavam a tais atividades, desistido do empreendimento ou optado pelo cultivo de plantas ornamentais.  

 

Em nossa pesquisa pudemos elencar parcialmente descendentes das seguintes famílias que ainda atuam como lavradores, em pequena e média extensão: Cloos (Embu-Guaçú-SP), Glasser (Parque Florestal, Chácara Santo Amaro), Guilger (Chácara Santo Amaro; também na cidade de Porto Feliz-SP), Helfstein (Embura, Chácara Santo Amaro, Engenheiro Marsilac, Embu-Guaçú-SP), Hemmel (Cidade Nova América, Colônia), Hengler (Embu-Guaçú-SP), Hessel (Divisa, Embura, Engenheiro Marsilac, Parada Quinze), Klein (Parada Quinze), Reimberg (Parque Florestal, Chácara Santo Amaro, Gramado, Cipó, Colônia, Embura), Rocumback (Bairro dos Borges, em Embu-Guaçú-SP), Roschel (Lagoa Grande, Divisa) e Schunck (Embura, Gramado, Cipó).

 

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