Bem Vindo
Memorial

“COLÔNIA ALEMÃ DE SANTO AMARO, UMA TRAJETÓRIA ÍMPAR (1829-2017)”

Capítulo 8

02/08/2018 17h06
Por: Redação
63
Imagem: Banco de dados do Google
Imagem: Banco de dados do Google

Por: Leandro Hessel

Capítulo 08

 

As Residências

 

Trataremos neste Capítulo sobre alguns aspectos das residências dos colonos alemães e sua posterior descendência.

 

A simplicidade observada nas residências que o tempo permitiu que chegassem até nós ainda de pé, quer sejam de barro (pau-a-pique), de madeira ou de alvenaria, demonstra o modo de vida austero e sem ostentação que as gerações antigas das famílias dos colonos mantiveram, sem dúvida, uma herança que trouxeram de seus locais de origem, mesclado com a simplicidade no modo de residir também demonstrada pelos habitantes locais com quem os colonos e seus descendentes conviveram no local que costumamos chamar “área de dispersão” dos colonos, que uma vez rejeitando as terras que o Governo Imperial Brasileiro lhes concedeu no centro e nas imediações mais próximas onde se formou o núcleo colonial, devido à má qualidade das mesmas, acabaram adquirindo as melhores terras ao redor, onde construíram suas primeiras habitações. Basicamente, nesses locais, os primeiros colonos construíram suas primeiras cabanas, nada além de simples ranchos de madeira e barro, cobertos de sapê.

 

Geralmente a casa de morada, principalmente da primeira e da segunda geração (quer fosse de barro, madeira ou alvenaria), era construída sobre um tope de inclinação suave, cujo terreiro era cercado de tábuas horizontais, não muito distante de um pequeno córrego onde se abasteciam de água potável e que, represado em determinada área, fazia movimentar o tosco engenho de fazer farinha.   

 

Em 1933, quando o Pastor Luterano Martin Begrich (1897-1971) visitou a Colônia, regiões vizinhas e algumas áreas de dispersão das famílias pioneiras, teve a oportunidade de observar o interior das residências que visitou e nos revela, em seu relatório: “Dá na vista, especialmente, encontrarem-se, em quase todos os lugares, na maioria das vezes, mesas com até 4 metros de comprimento e com 2 bancos sobre os quais encontram-se lugares para famílias numerosas e todo o seu pessoal de casa. (...). Quadros artísticos pendurados costumeiramente na parede da sala enfileirados um ao lado do outro; fila de quadros santos; ordenadas fotos de família, em sua maioria fotos de casamentos no formato de cartão postal; e quadros pintados em coloridos gritantes de propaganda” (no ano de 2011, em visita que fizemos à residência de Manoel Hessel [*1928] e Anna Mendes [*1932] [descendente da família Guilger], na Barragem, pudemos observar uma parte da parede interna, de madeira, forrada de recortes de folhinhas [calendários], com imagens de paisagens, arranjos de flores e mesas fartas de pães e doces)”.

 

Em 1977 um grupo de pesquisadores do jornal Gazeta de Santo Amaro esteve na Colônia para dar prosseguimento a uma reportagem sobre Santo Amaro, sua gente e sua história; na ocasião observaram que os descendentes dos colonos, naquela época, “nas suas residências austeras e escrupulosamente limpas, vivem, com seus baús e suas fotografias antigas”. (Jornal Gazeta de Santo Amaro, 16-4-1977, artigo “Santo Amaro, sua Gente, sua História”).

 

Nos dias atuais, de acordo com minucioso levantamento que realizamos em nossas pesquisas, ainda existem diversas casas antigas pertencentes (ou que pertenceram) a descendentes dos colonos alemães de Santo Amaro, de várias famílias. Elencamos 72 residências, localizadas na Colônia, área de dispersão e mesmo no centro de Santo Amaro; construídas num período que vai da década de 1830 até a década de 1930. Dessas, 05 são construídas de pau-a-pique (localizadas na Encruzilhada, Parelheiros, Itaim e Itaquaciara); 13 são construídas de madeiras serradas (localizadas na Chácara Santo Amaro, Encruzilhada, Parada Quinze, Embura, Colônia, Barragem, Varginha, Jardim Santa Fé e Itararé); 53 são construídas de alvenaria (tijolos) (localizadas na Vargem Grande, Chácara Santo Amaro, Veleiros, Bairro do Juza, Colônia, Recanto Campo Belo, Santo Amaro, Itaquaciara, Veleiros, Embura, Cidade Dutra, Parelheiros, Itu-SP, Encruzilhada, Vila Roschel, Lagoa Rica, Ribeirão Cocaia, Socorro, Itaim, Jardim dos Álamos, Jardim Almeida, Divisa, Santana de Parnaíba-SP, Butantã, Barragem, Jardim Primavera, Itararé, Cipó e Potuverá); e finalmente 01 é construída de pedra de cantaria (conhecida como “Casa de Pedra”, localizada na Chácara Santo Amaro, sendo esta a casa mais antiga de todas, construída pelo colono João Guilger [João Sapateiro] [1805-1875]).

 

O estilo arquitetônico utilizado pelos colonos e seus descendentes é o mais simples e utilitário possível, não diferenciando em nada com a tradicional técnica de construção dos caipiras paulistas; não vemos traço algum de arquitetura germânica nas residências, tanto nas que ainda existem quanto nas que já foram demolidas.

 

Ainda nos dias atuais, na região da Colônia e áreas de dispersão dos colonos localizadas na área rural, encontramos as “taperas” de antigas moradias dos descendentes de várias famílias. A tapera mais “famosa” de todas é a da casa de taipa de pilão que pertenceu a João Frederico Glasser (mais conhecido como Fritz Manco) (1843-1919), na Varginha (atual Chácara Santo Amaro), onde podemos ainda vislumbrar os restos do que foi a outrora imponente construção, erguida por volta de 1885 (segundo alguns, na década de 1870). Foi herdada por descendentes de João Frederico e posteriormente vendida. Muitos anos depois, permaneceu por longos anos abandonada no meio do mato, até que por volta de 1995 um grande desabamento a deixou em ruínas; posteriormente, em fins de 2003, foi “descoberta” por um grupo de pesquisadores e arqueólogos vinculados à Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, que conceberam o projeto de restaurá-la e destiná-la para o funcionamento de um futuro museu voltado à história da colônia Alemã. Porém, por volta desse mesmo ano, mais desabamentos acabaram tornando inviável qualquer espécie de restauro; contudo a Prefeitura Municipal de São Paulo-SP a desapropriou e sobre a mesma ergueu uma grande proteção de lona, que existe até os dias de hoje, porém sem qualquer espécie de restauro quanto à original construção de taipa, pelo que podemos dizer sem sombra de dúvida, que a casa-relíquia “continua abandonada...”

 

Enquanto na Alemanha os colonos já não tinham mais como retalhar a terra para todos os herdeiros, provocando até mesmo dispersão de membros de uma mesma família, quando já assentados na Colônia Alemã de Santo Amaro, uma boa parte dos colonos, aqueles mais bem sucedidos, possuía geralmente três propriedades distintas: o sítio de morada, o paiol onde produziam víveres e uma casa no centro da Vila de Santo Amaro; para os descendentes havia bens imóveis de sobejo para partilharem entre si. Na época em que os colonos partiram da Alemanha (1827-1828), as constantes divisões e retaliações de terras em partilha, já não podiam mais dar lugar a que descendentes de uma única família continuassem como lavradores em seus sítios, fazendo com que muitos herdeiros procurassem a imigração; segundo Emílio Willems (1905-1997) (A Aculturação dos Alemães no Brasil, Companhia Editora Nacional, 1980, 2ª edição, página 33): “para se fazer uma ideia do grau de divisão da propriedade, basta dizer que, por vezes, o dote concedido à filha casadeira era constituído por uma única árvore frutífera”, (geralmente uma pereira ou uma macieira).

 

 

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